O que nós terapeutas podemos querer que você saiba sobre nosso trabalho e sobre terapia

Fazer terapia ainda pode ser, para algumas pessoas, um tabu. É por isso que, inspirado por outros textos do mesmo tipo (links disponíveis ao fim, indico a leitura), resolvo escrever uma lista de coisas que nós terapeutas talvez gostaríamos que nossos pacientes/clientes soubessem sobre a terapia e a relação com um terapeuta.

 

1)      Nós efetivamente não te julgamos!

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Um dos motivos pelos quais uma terapia pode funcionar é porque o que você vive em sessão pode ser muito diferente do que é vivido lá fora. E lá fora já existe gente demais falando demais e julgando demais… A nossa intenção é de que você possa ser exatamente quem você é na nossa frente, sem pudores, sem juízos de valor, que fale tudo que pensa e sente sobre tudo e todos sem medo do que os outros podem pensar. Nós não pensaremos nada que não for pertinente ao seu tratamento. O certo e o errado existirá apenas pra você. Nosso trabalho será apontar o quanto as coisas que você traz para serem discutidas em sessão podem te gerar sofrimento desnecessário ou não.

 

2)      Você é livre para falar sobre o que quiser conosco.

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Aquilo que é um tabu ou que você não consegue falar nem em voz alta consigo mesmo na solidão do seu quarto, pode ser discutido, conversado e analisado na terapia. E talvez esse seja um dos motivos pelos quais a terapia é terapêutica. Da mesma forma que não te julgaremos (como no item 1), nós não falaremos sobre você com outras pessoas, a única pessoa sobre qual falaremos sobre você é você mesma! O sigilo é uma das regras máximas da nossa profissão e só pode ser quebrado em situações muito graves e específicas[1]. Vale salientar novamente que não há “certo” e “errado” em terapia por parte de um juízo de valor do terapeuta. Cabe a você decidir se alguma coisa é certa ou errada a depender das implicações disso em sua vida.

 

3)      Uma terapia de sucesso é um trabalho em equipe!

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Diferente de um médico, que conseguirá compreender seu caso por meio de exames muitas vezes independentes do seu comportamento, nós não temos esse privilégio. Tudo que precisamos saber para conseguir te atender e entender da melhor forma possível depende do trabalho em conjunto de duas pessoas: nós dois! O terapeuta e o cliente/paciente[2]. O fato de estarmos apenas cinquenta minutos da sua semana com você nos obriga a fazer um concerto a quatro mãos para que você consiga aprender a lidar melhor com as situações que, de alguma forma, lhe gerem conflito, sofrimento e que, talvez por isso, você ainda não consiga lidar da melhor forma possível. Um tratamento com dedicação e comprometimento de apenas um dos lados estará fadado ao fracasso.

 

4)      Nós não somos conselheiros tampouco tomamos decisões por você…

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Nós somos apenas agentes facilitadores. Alguém “de fora” completamente envolvido com você e seu caso (por mais paradoxal que isso possa soar) e que te ajudará a enxergar características do seu comportamento e da sua vida que você pode nunca ter percebido que estavam ali antes… e que de alguma forma te atrapalham a alcançar uma qualidade de vida almejada, mas por hora, distante. Mesmo se você demandar uma resposta de nós, sua vida não é uma receita de bolo em que há uma resposta pronta: “olha, coloque mais 3 colheres de sopa de farinha que a massa vai ficar perfeita como você quer!”… quem dera fosse simples assim!

 

5)      Ser terapeuta é trabalhoso. E não é substituível.

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Ter uma pessoa na sua frente dizendo (não exatamente com essas palavras) “ajude-me a viver melhor” não é uma tarefa fácil tampouco simples. Para sermos terapeutas nós estudamos por, no mínimo, cinco anos se só contarmos a graduação e o ensino formal… fora especializações, cursos, congressos, conferências, mestrado, doutorado etc etc etc. e se formos falar do ensino “informal”, que não envolve uma relação professor-aluno, nós estudamos por toda a vida. Fora a nossa própria terapia pessoal!!! Não existe o SEU caso num livro. Não existe um capítulo num livro dizendo o que devemos fazer durante as suas sessões e que nos diga, num conjunto de palavras, como compreender a complexidade que é sua vida e aquilo que você nos traz como mais importante. Cada caso é um estudo único, íntegro, dedicado e comprometido. É uma visão científica de como poderemos facilitar o caminho para que você alcance uma vida que valha a pena ser vivida. É por esses e muitos outros motivos que seus amigos e quaisquer outras pessoas (mesmo formadas em psicologia, mas que não sejam suas terapeutas) podem substituir a terapia e um terapeuta qualificado. E, por mais que gostaríamos que fosse verdade, compras podem ser prazerosas, mas não são terapêuticas em nenhum sentido especial, então, infelizmente, também não substitui a terapia e o terapeuta.

 

6)      Valorize sua terapia!

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A sua sessão é efetivamente SUA! Assim como a hora de comer, de tomar banho e de dormir é um horário sagrado para algumas pessoas, seu horário na terapia deveria ser também. Entender o esforço que você faz para pagar seu terapeuta e para ir até o consultório e enfrentar os monstros de falar sobre você e tudo que te aflige é um ato corajoso, de amor consigo mesmo e que, sobretudo, deve ser valorizado. Deve-se respeitar o contrato com o terapeuta e os horários (não chegar atrasado, nem tentar prolongar o seu horário, a depender da duração da sessão que o seu terapeuta oferece). Existem outros clientes antes e depois de você, que estão partilhando do mesmo objetivo de viver melhor consigo mesmo e com o mundo que os cerca; e por mais que as coisas possam estar sendo difíceis, você tem valor. Da mesma forma que você cuida da sua alimentação, do seu sono, da sua saúde no geral, cuidar da sua saúde mental é extremamente importante! Por que não fazê-lo?

 

7)      Você não necessariamente está doente. Você só precisa encontrar novas formas de se comportar!

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Parecemos viver numa sociedade em que o sofrimento é supervalorizado. Parece ser importante para algumas pessoas “sensacionalizar” e fazer do sofrimento e da doença um show a ser acompanhado de camarote (liguemos nossas televisões aos domingos na hora do almoço!). O que é importante saber é: o que hoje te gera sofrimento e que faz com que você ache que tenha depressão ou que “não bate bem das ideias” foram comportamentos que antes eram necessários para que você conseguisse sobreviver nos ambientes em que estava inserido. E isso varia de pessoa para pessoa. Muitas lidam com os problemas sendo agressivas, outras choram, outras viajam, outras tentam fingir que o problema não existe e assim por diante… o que importa agora é: se está gerando sofrimento é porque esse comportamento não mais dá certo, seja ele qual for. Quais outras formas podemos encontrar para lidar com tais problemas? Como eu disse, nós terapeutas somos agentes facilitadores para procurar por esses novos caminhos.

 

8)      Nós, psicólogos, não oferecemos medicamentos, mas oferecemos oportunidades de estabelecer autoconhecimento e autonomia.

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Terapia não é um trabalho exclusivo do psicólogo. Outros profissionais podem se intitular terapeutas. Psiquiatras são bons exemplos. Como médicos, eles podem oferecer também um tratamento medicamentoso. Nós, psicólogos, por outro lado, oferecemos também a oportunidade de você se conhecer melhor, de saber os motivos pelos quais pensa, sente, fala, age, sonha, etc da forma como o faz e, dessa forma, oferecemos a possibilidade de que você aja melhor no seu ambiente, isto é, que você aprenda a se comportar melhor diante das pessoas que convive, consigo mesmo e com a própria vida, diminuindo o sofrimento desnecessário e aumentando as chances de produzir eventos que façam com que você se sinta bem consigo mesmo e com o mundo que te cerca. Particularmente, creio que uma terapia só teve sucesso se atingiu esses dois pontos: autoconhecimento e autonomia.

 

9)      Você não é o problema!

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Simples e direto: Você não é o problema, você passa por problemas e não sabe como lidar com eles. Mesmo que tenha dedo seu por trás do problema pelo qual você passa, verdades absolutas não existem, e a terapia te ajudará a mudar.

 

 

10)  Terapia é um ato de amor.

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De diversas formas: um ato de amor de você consigo mesmo. Um ato de amor do terapeuta para com você. Um ato de amor mútuo que envolve uma relação de confiança, intimidade e empatia e, sobretudo, um ato de amor de você para com sua própria vida.

 

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Terapia é um investimento pessoal. Procure um profissional qualificado. Dê-se a chance de melhorar enquanto pessoa e mudar sua vida.

 

[1] Se você colocar a sua própria vida ou a vida de terceiros em risco, por exemplo.

[2] Ambas as terminologias estão corretas, a depender da abordagem teórica do terapeuta; eu, como psicólogo analítico-comportamental, refiro-me àqueles que me procuram como clientes.

 

As matérias, ambas publicados no BuzzFeed, que me inspiraram a escrever esses singelos 10 itens e que eu sugiro leitura:

https://www.buzzfeed.com/victornascimento/coisas-que-psicologos-gostariam-de-confessar-para-voce?utm_term=.co0DpmeEo#.iwwRvxP9M

https://www.buzzfeed.com/caseygueren/15-coisas-que-os-terapeutas-na-verdade-querem-que?utm_term=.ohvBwrpNY#.nu1A0w8XR )

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