“Não queria ter agido assim!”: sobre as causas do comportamento e saber quem somos

Quantas vezes você se pega pensando “por que eu fiz isso?” ou “eu não deveria ter feito aquilo!” e até mesmo tem a criatividade de reviver uma situação apresentando um comportamento diferente: “eu deveria ter dito isso… não aquilo que eu disse!”. Talvez essa situações ocorram, em nosso cotidiano, mais do que gostaríamos que ocorresse.

O que pode fazer com que façamos essas perguntas a nós mesmos é que não sabemos dizer o porquê nós fizemos algo de uma determinada forma e não de outra ou quando também não sabemos explicar o motivo pelo qual dissemos o que havíamos dito. E, infelizmente, não saber o motivo pelos quais fazemos e dizemos algumas coisas é mais comum do que se pensa.

Não saber as causas dos nossos comportamentos significa não saber descrever o que nos fez agir daquela determinada forma naquele contexto em específico. Algumas pessoas tenderiam a dizer que nos comportamos no “calor do momento”, atribuindo a causa de sua ação a um sentimento ou um pensamento. Mas, o que seriam o sentimento e o pensamento se não ações do nosso organismo? E, sendo uma ação, ele também precisa ter uma causa, afinal, nossos sentimentos e nossos pensamentos, ao contrário do que parece, não vêm do nada. Dessa forma, o que fazemos, dizemos, sentimos e pensamos são todos comportamentos.

Nossas ações, nossos dizeres, nossos sentimentos e nossos pensamentos só existem até hoje por causa das consequências que eles geraram no passado. Um exemplo muito simples: só pedimos para que alguém, hoje, nos passe o sal porque quando precisamos do sal antes, nós pedimos e alguém nos entregou. Se nós tivéssemos pedido e ninguém tivesse entregado, provavelmente não tenderíamos a pedir por ele hoje (afinal, nós pedimos e o sal não chegou até nós).

Mas não! Não é possível que as emoções não sejam causa do comportamento! Só as consequências de nossos comportamentos já são fortes o suficiente para que eles sejam selecionados e se mantenham ocorrendo? Vejamos um exemplo em que muitas pessoas atribuiriam a causa do comportamento à emoção: “eu conheço ela. Ela é muito explosiva. A amiga dela deu em cima do namorado dela e ela partiu pra cima! Puxões de cabelo foram poucos!”.

img2

A pessoa fictícia que relata o caso já atribui que a personagem é explosiva e a maioria das pessoas aceitariam essa explicação sem questionar. Mas, em primeiro lugar, o que tornou essa pessoa explosiva? Poderíamos supor que, em sua história de vida, conversar não era uma opção que faria com que ela obtivesse as consequências desejadas. Em contextos de briga, conversar não faria com que as pessoas parassem de brigar com ela. Logo, tentar conversar e as brigas não pararem tem o mesmo efeito de pedir pelo sal e ninguém passar: esse comportamento não terá tantas chances de acontecer novamente.

Agora, suponhamos que quando ela foi agressiva, as brigas se encerraram. Ela, mesmo que “inconscientemente”, entende que “se eu fizer assim, a briga para”, afinal, ela se comportou e obteve o que queria. Dessa forma, ela não tem motivos para tentar outras formas uma vez que ser agressiva dá certo. Concluímos que ela não bateu na amiga porque ela é explosiva. Seria melhor dizer que ela bateu na amiga porque aprendeu que quando é agressiva as pessoas param de fazer coisas que ela não gosta (nesse caso, bater na amiga faz com que ela pare de dar em cima do namorado).

Outra evidência de que a emoção não é causa do comportamento: ela poderia estar com raiva da mãe dela, mas não a agrediria como agrediu a amiga, por mais intensa que fosse a emoção. Se a raiva fosse a causa, bater na mãe e na amiga não teria tanta diferença: simplesmente aconteceria.

Sendo assim, nós só não sabemos o motivo pelos quais nos comportamos de determinadas formas em determinadas situações porque não aprendemos a descrever as causas dos nossos comportamentos. Saber descrever como e porquê nos comportamos de um jeito e não de outro é saber dizer quem nós somos. E saber quem nós somos talvez seja um dos objetivos mais nobres que possamos querer atingir em nossas vidas.

img1

Todos os comportamentos começam “inconscientes” porque precisamos que alguém nos ajude a descrever os motivos pelos quais fazemos algumas coisas e não outras. E uma das pessoas que podem nos ajudar a aprender a descrever nossos comportamentos (o que fazemos, dizemos, sentimos e pensamos) é o psicoterapeuta.

A psicoterapia tem como objetivo último estabelecer o autoconhecimento e a autonomia. Como dito, saber descrever as causas dos nossos comportamentos (saber porquê fazemos o que fazemos, dizemos o que dizemos, sentimos o que sentimos e pensamos o que pensamos) é saber quem somos. E, só assim, poderemos passar para o próximo passo, que é autonomia: sabendo quem somos, conhecemo-nos o suficiente para agirmos melhor no mundo em que estamos vivendo. E ter autonomia é, justamente, ser capaz de agir, sozinho, para a melhoria da própria qualidade de vida.

Anúncios

O que esperar de um terapeuta analítico-comportamental?

A abordagem behaviorista (ou comportamental) entende que tudo aquilo que o homem faz, diz, pensa, sente, sonha, lembra etc. na interação com o meio em que está inserido é comportamento. Defende que todos os organismos são únicos e sensíveis às consequências de seus comportamentos. Essas consequências, produzidas pelos seus comportamentos, retroagem sobre o indivíduo que se comporta, determinando como ele agirá no futuro.

Cada pessoa que procura um psicólogo analítico-comportamental (também chamado de analista do comportamento ou terapeuta comportamental) pode esperar um profissional com predisposição para ajudar o cliente/paciente a modificar comportamentos que estão gerando sofrimento e, em contrapartida, com predisposição para ajudar a manter ocorrendo aqueles comportamentos que geram melhor qualidade de vida.

terapia

Em geral, a postura de um analista do comportamento é de desenvolver o trabalho da terapia com base nos princípios da empatia, da consciência, da coragem, do amor e, claro, do behaviorismo. Os objetivos últimos da terapia comportamental (e de todas as terapias, por que não?) é de promover autoconhecimento e autonomia, fazendo com que a pessoa que busca por esse serviço se conheça melhor para que aprenda a agir melhor em seu mundo, gerando assim, modificação de comportamento e melhoria da qualidade de vida.